
Bernadete Rizzo da Rocha Loures*
Depois de muitas horas de dedicação e estudos, o estudante conquista uma vaga em uma instituição de nível superior. Freqüentará um ambiente novo, a universidade, e vivenciará sua nova condição de universitário. Muitos estudantes, além da ansiedade natural que a novidade pode trazer, preocupam-se como serão recepcionados pela comunidade acadêmica e, caso ocorra, como será trote realizado pelos veteranos. Acreditamos que tal preocupação não deveria existir, pois esse acolhimento será feito por uma universidade, local em que se deve adentrar sem temores, pois ela é o espaço apropriado para o desenvolvimento pessoal e da arte de relacionar-se com o outro, exercitando e defendendo os valores éticos e assimilando novos conceitos. O ambiente universitário, em que pese seja erroneamente encarado como excessivamente tecnicista, serve para solidificar a justiça, a solidariedade e a cooperação. Nele estaremos aprendendo e apreendendo novos conteúdos, exercendo a cidadania, fazendo valer nossos direitos e reconhecendo nossos deveres. E ainda é um ambiente adequado para a percepção das mudanças profundas da sociedade, facilitando-nos, assim, a compreensão de suas demandas. Mas com uma rápida leitura dos grandes veículos de comunicação, especialmente no final dos anos 80 e grande parte da década de 90, percebemos que esse receio muitas vezes se justifica. Naquela época observou-se que o ingresso de muitos estudantes na universidade foi feito de forma traumática, pelo trote estudantil, geralmente caracterizado por atos de humilhação física, moral e emocional (banhos de lama, ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas, cortes de cabelo, pinturas do corpo, indução à mendicância através de pedágios com o objetivo de angariar dinheiro para comprar cervejas para os veteranos).
Segundo o dicionário Aurélio, o termo trote significa um modo de movimentar-se dos cavalos, uma andadura que se situa entre o passo e o galope. Entretanto, o trote não é um movimento natural e habitual dos equinos, mas algo que deve ser ensinado a ele (muitas vezes à base de esporadas e chicotadas). Assim sendo, o calouro pode ser encarado pelo veterano como alguém que deve ser domesticado, e “aprender a trotar” para merecer sua nova condição.